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Route 66

fender mustang 66

Já há muito que esta guitarra deveria ter entrado para este blog. As fotos chegam mesmo a tempo do primeiro aniversário do atelier Afinas ou Não Afinas? na rua do Breyner.

É uma Fender Mustang de 1966 e, além do peso dos anos, carrega também três generosas camadas de tintas e vernizes. Como já tinha referido anteriormente neste blog, o vermelho Dakota foi reprimido pela cor azul, no tempo de Salazar. Uns anos mais tarde, descontente com o azul FCP, a guitarra foi novamente pintada de preto. Está então na altura de devolver a dignidade a esta guitarra. Inicialmente foi ponderada a cor Daphne Blue, Sonic Blue até que finalmente decidi, em cojunto com o cliente, que o projecto passaria por devolver a guitarra ao seu estado original, na medida do possível. Em termos de acabamento, tentarei replicar o estado actual da guitarra, não tivesse ela sido sujeita aos processos que descrevi.

Contudo, os problemas da guitarra não se resumiam ao acabamento: os trastos estavam em péssimo estado, a pestana partida, algumas das ferragens a precisar de uma boa dose de TLC.

mustang pickguard
O chanfro desta pickguard não escapou à tinta preta.

mustang fretboard coming off
E os problemas continuam. A escala está descolada.

finishing schedule nitro
Antes de começar seja o que for, faço uma planificação dos passos seguintes e são feitas várias anotações para referência futura.

vintage mustang stripping finish
Aqui podemos apreciar a quantidade de tinta que camuflava o, ainda intacto, Dakota Red. Se não estou em erro, podem ver-me de raspador nas mãos a trabalhar nesta guitarra, no vídeo de apresentação Afinas ou Não Afinas? em 30 Segundos.

mustang stripped finish
Aproveitei para deixar visível um pouco da cor original, para a fotografia. Foi bom constatar que o acabamento original ainda lá estava, uma vez que me permitiu ter a melhor referência para acertar a cor.

mustang dakota red nitro
Segue-se então um par de camadas preliminares para a base da cor, que foi então seguida de várias camadas de verniz nitroceluloso.

mustang bone nut
Enquanto tinha o corpo hipotecado na estufa fiz uma nova pestana de osso.

E para terminar:
mustang nitro refin final

mustang nitrocelulose refin dakota red

Muito obrigado ao Ricardo, por me ter confiado este trabalho.

Summer of ’66

Fender Stratocaster e Fender Mustang de 1966

Temos aqui duas Fender, uma Stratocaster e uma Mustang, de 1966, o primeiro ano de produção após a aquisição da Fender por parte do gigante CBS. Ambas contam histórias interessantes.

A Stratocaster (o braço que se encontra por baixo, na foto) já disse adeus à sua escala e trastos originais, que foram substituídos por um colega de profissão. Os trastos colocados na nova escala eram um modelo Jumbo e foram novamente substituídos pelos Dunlop 6105 por outro luthier. À parte do meu conservadorismo relativamente ao trasto (e não me refiro à dimensão da coroa), a escala de pau rosa (Dalbergia latifolia) de 2 mm foi subsituída por uma escala em ébano com uns muito generosos 6,5 mm. Somando a diferença de 4,5 milímetros da escala à diferença entre os trastos, temos uma guitarra onde as selas deixam de ter curso suficiente para assegurar uma acção praticável. Numa tentativa de solucionar o problema, o neck pocket foi vandalizado sem qualquer resultado benéfico. A superfície apresenta-se agora irregular e com todo o tipo de tralha para calçar a junção.

Mas há mais: o fret-dressing irregular faz com que a guitarra trasteje de uma forma bem incomodativa mesmo com a acção bastante alta. Numa tentativa de contornar o problema o dono desta guitarra colocou um calço debaixo da pestana: dois rectângulos de folha de papel; um penso rápido que me provoca urticária.

Por outro lado, a Mustang conta com todas as suas peças originais embora os trastos estejam claramente desgastados e a precisar de uma substituição. A pestana terá que ser substituída não só como consequência do fretjob (quando os trastos são substituídos é muito comum ser necessário substituir também a pestana, mas não vamos colocar papel, pois não?) mas também por se encontrar partida e com os sulcos visivelmente irregulares. A pestana será de osso não branqueado, uma vez que não contrasta tanto com os 44 anos da guitarra.

Agora a parte mais engraçada: a guitarra já foi pintada 3 vezes. Inicialmente a cor era Dakota Red mas o seu dono original (pai do actual dono) viu-se forçado a pintá-la de azul como consequência das imposições de Salazar. Quem diria? A cor escolhida foi um azul Futebol Clube do Porto. Depois, durante a sua adolescência, o actual dono pintou-a de preto sem retirar as ferragens. Temos então 3 camadas de tinta para remover. A guitarra, com pena minha não será pintada novamente de vermelho Dakota Red mas sim de Sonic Blue, uma cor que não era oferecida na gama Mustang nos anos 60.

Seguindo a mesma linha de pensamento do osso não branqueado, o acabamento desta guitarra será sujeito a várias operações de envelhecimento acelerado, para não retirar o charme desta guitarra e para simular, na medida do possível, o estado da guitarra nos dias de hoje, não tivesse ela sido pintada.

Durante os próximos dias irei aprofundar os meandros de cada um destes trabalhos, ambos exigentes.

Até à volta,
Celso