Summer of ’66

Fender Stratocaster e Fender Mustang de 1966

Temos aqui duas Fender, uma Stratocaster e uma Mustang, de 1966, o primeiro ano de produção após a aquisição da Fender por parte do gigante CBS. Ambas contam histórias interessantes.

A Stratocaster (o braço que se encontra por baixo, na foto) já disse adeus à sua escala e trastos originais, que foram substituídos por um colega de profissão. Os trastos colocados na nova escala eram um modelo Jumbo e foram novamente substituídos pelos Dunlop 6105 por outro luthier. À parte do meu conservadorismo relativamente ao trasto (e não me refiro à dimensão da coroa), a escala de pau rosa (Dalbergia latifolia) de 2 mm foi subsituída por uma escala em ébano com uns muito generosos 6,5 mm. Somando a diferença de 4,5 milímetros da escala à diferença entre os trastos, temos uma guitarra onde as selas deixam de ter curso suficiente para assegurar uma acção praticável. Numa tentativa de solucionar o problema, o neck pocket foi vandalizado sem qualquer resultado benéfico. A superfície apresenta-se agora irregular e com todo o tipo de tralha para calçar a junção.

Mas há mais: o fret-dressing irregular faz com que a guitarra trasteje de uma forma bem incomodativa mesmo com a acção bastante alta. Numa tentativa de contornar o problema o dono desta guitarra colocou um calço debaixo da pestana: dois rectângulos de folha de papel; um penso rápido que me provoca urticária.

Por outro lado, a Mustang conta com todas as suas peças originais embora os trastos estejam claramente desgastados e a precisar de uma substituição. A pestana terá que ser substituída não só como consequência do fretjob (quando os trastos são substituídos é muito comum ser necessário substituir também a pestana, mas não vamos colocar papel, pois não?) mas também por se encontrar partida e com os sulcos visivelmente irregulares. A pestana será de osso não branqueado, uma vez que não contrasta tanto com os 44 anos da guitarra.

Agora a parte mais engraçada: a guitarra já foi pintada 3 vezes. Inicialmente a cor era Dakota Red mas o seu dono original (pai do actual dono) viu-se forçado a pintá-la de azul como consequência das imposições de Salazar. Quem diria? A cor escolhida foi um azul Futebol Clube do Porto. Depois, durante a sua adolescência, o actual dono pintou-a de preto sem retirar as ferragens. Temos então 3 camadas de tinta para remover. A guitarra, com pena minha não será pintada novamente de vermelho Dakota Red mas sim de Sonic Blue, uma cor que não era oferecida na gama Mustang nos anos 60.

Seguindo a mesma linha de pensamento do osso não branqueado, o acabamento desta guitarra será sujeito a várias operações de envelhecimento acelerado, para não retirar o charme desta guitarra e para simular, na medida do possível, o estado da guitarra nos dias de hoje, não tivesse ela sido pintada.

Durante os próximos dias irei aprofundar os meandros de cada um destes trabalhos, ambos exigentes.

Até à volta,
Celso

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