Monthly Archives: March 2011

Tune-o-matic blues

Já é a segunda cópia japonesa dos anos 70 da Gibson SG que me entregam onde constato que a ponte tune-o-matic encontra-se numa posição onde é impossível intonar a guitarra. Neste caso a ponte encontra-se demasiado próxima da pestana e as selas não oferecem curso suficiente para garantir a intonação. Com cordas de maior calibre o problema só irá agravar-se.

modifying a tune-o-matic

Realocar os pivots será, certamente, uma possibilidade, mas não aprecio soluções desnecessariamente drásticas.

Ocorreu-me então tirar partido de uma área generosa em torno da furação do poste de regulação em altura, que prolonguei cerca de dois milímetros para, consequentemente, deslocar toda a ponte sem mexer no poste.

Assim:
tune-o-matic intonation solution

No entanto, é agora necessário encontrar uma forma de assegurar que a ponte não se move durante a execução. Para isso fiz dois furos perpendiculares ao orifício que acabei de modificar para, de seguida, colocar um parafuso que servirá de batente.

tune-o-matic side screw tapping

Assim, temos a tune-o-matic no sítio certo, literalmente trancada. Afinas ou não afinas?

tune-o-matic bridge modification

Com quantos paus…

Quem me conhece e frequenta o atelier sabe da minha panca por instrumentos acústicos e por tudo o que envolve a sua construção: acústica, ergonomia, engenharia, trabalho manual, etc. Pode quase dizer-se que esta arte condensa quase tudo o que aprecio e gosto de explorar.

Dentro de pouco tempo terei novidades para dar mas, para já, limito-me a partilhar as fotos do processo de uma guitarra acústica, inspirada no formato OM, que construí em 2009.

Jägermeister // Keep on dancing

fender jaguar refret

Esta Fender Jaguar é do João Vieira (X-Wife) e esteve cá há uns tempos para um fretjob, estavam os X-Wife em aquecimento para as gravações do novo álbum, nos estúdios da Valentim de Carvalho.

Entretanto já passaram uns meses e as fotos estavam a ganhar pó. Parece-me ser um óptimo pretexto para colocá-las aqui no blog e dizer que o novo single já está disponível e podem descarregá-lo aqui. Ide ouvir e bater o pé!

fender jaguar x-wife

Route 66

fender mustang 66

Já há muito que esta guitarra deveria ter entrado para este blog. As fotos chegam mesmo a tempo do primeiro aniversário do atelier Afinas ou Não Afinas? na rua do Breyner.

É uma Fender Mustang de 1966 e, além do peso dos anos, carrega também três generosas camadas de tintas e vernizes. Como já tinha referido anteriormente neste blog, o vermelho Dakota foi reprimido pela cor azul, no tempo de Salazar. Uns anos mais tarde, descontente com o azul FCP, a guitarra foi novamente pintada de preto. Está então na altura de devolver a dignidade a esta guitarra. Inicialmente foi ponderada a cor Daphne Blue, Sonic Blue até que finalmente decidi, em cojunto com o cliente, que o projecto passaria por devolver a guitarra ao seu estado original, na medida do possível. Em termos de acabamento, tentarei replicar o estado actual da guitarra, não tivesse ela sido sujeita aos processos que descrevi.

Contudo, os problemas da guitarra não se resumiam ao acabamento: os trastos estavam em péssimo estado, a pestana partida, algumas das ferragens a precisar de uma boa dose de TLC.

mustang pickguard
O chanfro desta pickguard não escapou à tinta preta.

mustang fretboard coming off
E os problemas continuam. A escala está descolada.

finishing schedule nitro
Antes de começar seja o que for, faço uma planificação dos passos seguintes e são feitas várias anotações para referência futura.

vintage mustang stripping finish
Aqui podemos apreciar a quantidade de tinta que camuflava o, ainda intacto, Dakota Red. Se não estou em erro, podem ver-me de raspador nas mãos a trabalhar nesta guitarra, no vídeo de apresentação Afinas ou Não Afinas? em 30 Segundos.

mustang stripped finish
Aproveitei para deixar visível um pouco da cor original, para a fotografia. Foi bom constatar que o acabamento original ainda lá estava, uma vez que me permitiu ter a melhor referência para acertar a cor.

mustang dakota red nitro
Segue-se então um par de camadas preliminares para a base da cor, que foi então seguida de várias camadas de verniz nitroceluloso.

mustang bone nut
Enquanto tinha o corpo hipotecado na estufa fiz uma nova pestana de osso.

E para terminar:
mustang nitro refin final

mustang nitrocelulose refin dakota red

Muito obrigado ao Ricardo, por me ter confiado este trabalho.

O DVD dos Azeitonas

(ou azeitona às rodelas)

E diz assim o AJ:

“quem quiser ter a gentileza de partilhar e ajudar a divulgar o DVD que aí vem, faça o favor. É música portuguesa independente que vive às custas da net, esse monstro inimigo da indústria musical, mas tão amigo da música. Se neste vídeo se ouve o pessoal a cantar, é graças aos facebooks, myspaces, mp3, etc. Esta música não dá na rádio e não existe em cd. A banda agradece!”

Isto relembra-me que aquela Telecaster teve alta poucos dias antes deste concerto. O meu organismo acusa sempre um pico na produção de endorfina quando vê o meu trabalho em palco, nas mãos de gente inspirada. Boa disposição instantânea.

Fretjob or fretdress?

ibanez jem worn frets

Antes de mais, o fretjob consiste na substituição dos trastos num instrumento. O fretdress refere-se a um conjunto de operações que passam por nivelar, bolear e polir os trastos existentes. Por vezes, é necessário fazer um fretdress como finalização de um fretjob.

A decisão de optar por um fretjob ou fretdress é, muitas vezes, ditadas pelo estado actual dos trastos.

jem fretdress

Neste caso, temos uma Ibanez Jem (o modelo de assinatura do Steve Vai) com os trastos em estado pós-guerra. As consequências passam por um instrumento mais difícil de tocar porque a zona de contacto entre a corda e o trasto é grande. Pelo mesmo motivo, a linha de intonação de cada trasto é desviada do seu lugar original, fazendo com que seja ter o instrumento correctamente afinado e intonado. Para terminar, quando os trastos se encontram com este nível de desgaste, inevitavelmente temos uns com mais desgaste do que outros. Por todas estas irregularidades, o instrumento só não irá trastejar se tiver uma acção altíssima.

O estado deplorável dos trastos tornou a opção de fretdress praticamente impossível, uma vez que o sulco mais profundo passaria a ser a altura de referência dos trastos. Depois de medir e voltar a medir, concluí que tinha massa suficiente para não comprometer o desempenho desta guitarra. Evitamos um fretjob durante uns bons tempos, uma vez que tenho a certeza que já não resta trasto suficiente para um novo fretdressing.

E agora as fotos:

fretdress leveling bar
A viga de alumínio calibrada de acordo com o raio de curvatura desta escala: 16 polegadas.

leveling process
Depois de muitas passagens, ainda há muito material para remover.

leveled frets
A esta altura os trastos já se encontram nivelados, sendo necessário boleá-los para repor o seu perfil semi-circular. Após esta fase estarão sujeitos a 4 gramagens de lixa e posteriormente polidos.

jem fretdressing final
Et voilá. A guitarra encontra-se agora afinadíssima e fácil de tocar, com os mesmos trastos (ainda que consideravelmente mais baixos). Tenho a certeza que quando esta guitarra voltar será para um fretjob.