Monthly Archives: September 2010

Black hole sun

washburn lexington sideport

Não é todos os dias que me pedem para furar uma guitarra acústica. Neste caso foi o Francisco Rua.

As vantagens são simples e claras: com a nova abertura lateral (ou sideport) o Francisco passou a ter uma nova perspectiva do interior da guitarra (é verdade!) e um reforço de monição que, neste caso, estima-se rondar os 4dB, dependendo da distância a que nos colocamos, claro. Existem relatos de um aumento de 10dB medidos a poucos centímetros da sideport.

À parte disto, existe uma clara sensação de envolvência com o instrumento, uma vez que o que nos chega aos ouvidos não é exclusivamente composto por reflexões. Trata-se de um timbre claramente mais aberto, articulado e verdadeiro, se assim pudermos dizer.

Mas não acaba aqui. Não se tratando de um modelo análogo à guitarra, o ressoador de Helmholtz1, 2 apresenta um leque de variáveis similares. Qualquer um de nós já experimentou soprar para o gargalo de uma garrafa, resultando num som bem definido. Enchendo a garrafa com um líquido, a nota irá aumentar em frequência. Isto diz-nos que a frequência desta nota é a frequência de ressonância da massa de ar contida na garrafa e varia em conformidade com o volume da caixa, com o comprimento do gargalo e, também, com o diâmetro do mesmo.

Em boa verdade, o valor da frequência de ressonância da massa de ar não nos diz muito sobre o timbre resultante sem estudarmos a sua relação e interacção com a frequência de ressonância do tampo e das costas do instrumento (entre outras variáveis). É, por isto, necessário ter uma atenção especial ao diâmetro da sideport. Em teoria, para preservar a ressonância da caixa de ar, teríamos de reduzir a abertura do tampo, que neste caso é oval.

Depois de ter medido o volume da caixa deste instrumento, assim como a frequência de ressonância das três principais componentes (massa de ar, tampo e costas), apliquei um impulso ao tampo da guitarra e de seguida fiz a análise espectral pela transformada de Fourier que me permitiu visualizar a interacção das 3 frequências de ressonância envolvidas e, também, a forma como estas poderiam favorecer ou ameaçar as variadíssimas afinações utilizadas pelo Francisco.

Existem, no entanto, outras formas de controlo tonal e tímbrico de um instrumento como a guitarra. A título de curiosidade destaco o tornavoz: um dispositivo cónico ou cilíndrico que se julga ter sido aplicado pela primeira vez em guitarras por Antonio de Torres. Regressando ao ressoador de Helmholtz, o tornavoz representará o comprimento do gargalo da garrafa.

Conclusão: um simples furo tem muito que se lhe diga. Perguntem à BP.

Podem ouvir a guitarra do Francisco Rua no álbum “Pontes”, que saiu há pouquíssimo tempo. Trata-se de um álbum instrumental com reportório para guitarra acústica, numa abordagem assumidamente contemporânea. Se apreciam a música de malta como Michael Hedges, Leo Kottke, Andy McKee ou Thomas Leeb, fiquem atentos ao trabalho do Francisco e também a este blog.

<a onclick="javascript:pageTracker._trackPageview('/outgoing/franciscorua.bandcamp.com/album/pontes');" href="http://franciscorua.bandcamp.com/album/pontes">Smokey by Francisco Rua</a>

1Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz foi um físico alemão que conta com uma prolífica contribuição para várias áreas da ciência durante o século XVII
2O ressoador de Helmoltz apresenta, por definição, paredes rígidas, ao contrário da guitarra