Monthly Archives: April 2010

Baixos Warwick e a frase “Isso vai ter que levar um braço novo”

Posso dizer que nos últimos anos há duas tendências facilmente identificáveis no que concerne aos tipos de trabalho que recebo no atelier: cada vez menos chegam guitarras com Floyd Rose e a esmagadora maioria dos baixos com problemas severos no truss rod são da marca Warwick, da época de 90.

Na mesma semana recebi um Corvette FNA e um Streamer Stage II com o mesmo problema: o parafuso do tensor do braço (ou truss rod) encontra-se moído. A solução para este problema nem sempre é acessível (do ponto de vista técnico e financeiro) e creio que é por situações destas que se cria aquele mito urbano de que ajustar o truss rod é uma manobra mais complicada do que estacionar um camião TIR no piso superior do Norteshopping.

Voltando aos Warwick, o parafuso moeu. Em circunstâncias normais seria fácil removê-lo e substituí-lo para voltar a ter controlo sobre o empeno do braço. No caso dos Warwick, o truss rod é de acção dupla, podendo impor uma curva côncava ou convexa, ou por outras palavras, ajudando ou contrapondo a tensão que as cordas exercem sobre o braço. Isto faz com que a sua remoção só seja possível depois de remover a escala. Ouch.

Mãos à obra e vamos ligar o modo de telegrama:

1º iniciar a descolagem da escala, tendo o cuidado de não aplicar temperaturas excessivas, sob pena de deformar ou induzir exaustão nas fibras deste Wengué.

Warwick FNA - truss rod problem

2º garantir acesso ao parafuso.

3º mostrar ao mundo o que é que uma chave com um número abaixo é capaz de fazer quando conjugada com metais macios.

4º fazer um novo parafuso.

5º colocar o novo parafuso.

6º colar novamente a escala.

7º rectificar os trastos e, no caso do Streamer Stage II, os entalhes da escala que sofreram os efeitos dos ciclos sucessivos de calor e humidade a que os sujeitei.

8º certificar-me que as madeiras se encontram com níveis de humidade estabilizados, antes de sujeitar o braço à acção da tensão das cordas.

9º escrever um textinho sobre o assunto no blog.

10º jantar.

Special guitar/special customer? Não interessa.

Todos conhecemos o Rui Veloso. Certo?

Ok, todos sabemos quem é o senhor mas existe aquela sensação de que, de facto, o conhecemos. É uma daquelas caras familiares, que nos habituamos a ter por perto ou a ver regularmente. Para aumentar o nível de familiaridade, o Rui, como qualquer um de nós, gosta muito de guitarras. A diferença reside no facto de que a colecção do Rui já passou as duas centenas.

Na marquesa do atelier esteve, entre outras, a Fender Robben Ford do Rui.

Não obstante tratar-se de um cliente especial (acuse-se o leitor que tenha mais de duzentas guitarras e discos quintupla platina), este trabalho torna-se ainda mais interessante se considerarmos que este instrumento esteve nas mãos do Rui, numa das vezes que com o sr. BB King que, contando com mais discos vendidos do que o Rui, nos habituamos a vê-lo sempre acompanhado pela sua Lucille.

Esta guitarra já conta com alguns anos e, consequentemente, os blues trataram de reduzir os sulcos da pestana de osso a menos de 0,015 mm de altura, carregadinhos de ferrugem, sujidade e, enfim, esterco generalizado. Depois, o ponto de partida não se encontrava equitativamente distribuído de corda para corda. Mais coisas… a pestana encontrava-se claramente fracturada, por isso foi fácil decidir que o melhor a fazer era esculpir uma nova pestana, de um bloco de osso proveniente de uma vaca que, esperamos, sentiria orgulho em saber onde iria parar um pedaço do seu fémur.

À parte dos problemas de tocabilidade e afinação patrocinados pela pestana, encontrei algumas ligações à massa mecanicamente débeis e, também, alguns ruídos ao nível do selector de pickups.

Et voilá. (referência forçada e intencional ao vídeo “Brock you, fuckers”, acessível ali ao lado, no YouTube)

Se é uma fonte de nervosismo e desconforto trabalhar num instrumento destes? Nada disso; foi um prazer. Deixa-me contente o facto de poder emprestar o mesmo empenho e entusiasmo à Rockster do Pedro ou à Robben Ford do Rui. Se bem que não escrevi nenhum texto sobre a Rockster… mas vocês entendem. Certo?